Clarice Lispector usou "a terceira perna" para demonstrar seus outros "eus".
Eu usei máscaras e personagens.
Distintos, diversos, outros.
E, apesar de serem todos descartáveis, momentâneos, de utilidade breve, deixaram em mim pedaços esparsos, fragmentos que fui incorporando mesmo sem saber ou querer.
É que esses personagens tinham cada um, um pouco do que sou; ainda que eu não soubesse ao certo que era.
E esses vários personagens em suas múltiplas vivências, confundiam-me a mim, quando de suas ausências.
Parecia-me faltar uma parte.
Então, quando tentava aquietar-me apenas comigo mesma, me era impossível fazê-lo porque não me encontrava.
Estava tão misturada aos meus personagens vários que, o que imaginava ser, não era visível, perceptível facilmente.
E quanto mais mergulhava no desejo de estar comigo, mas diversa e fragmentada me percebia.
Insistia, pois, numa espécie de luta comigo mesma.
Uma luta da razão, do desejo de assumir quem eu era verdadeiramente e da negaça, permanente do ser próprio, que dava vida aos personagens que sustentavam a grande trama da minha excitante e fantasmagórica existência.
Ainda a tentativa de estar a sós comigo.
E novamente a rendição.
Venceu o personagem alegre que perambulava por aí exibindo sua alegria, seu jeito leve de ser e de ver o mundo, enquanto quem eu era, estava encarnado, por dentro, do lado de dentro do personagem; sucumbido no seu interior.
Mas eu era também o que estava exposto; a parte de fora, que também sofria com as lutas e reveses desse não-ser, não saber ser; desse ser perdido nesse labirinto de contradições e incongruências.
Era um existir na sombra do eu, na superfície visível ao mundo e nas profundidades obscuras e intocáveis do ser escondido nos vários personagens.
Um bailar de máscaras reluzentes que cegavam a visão na direção do eu.
Máscaras e sombras.
Personagens, lutas, angústias, delírios – rendição.
Medo – o monstro que habita as entrelinhas do não-ser e do ser.
Ione Camelo
Outono/2009
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