Ione Camelo
Submeter-se,
sujeitar-se, ceder, não resistir, executar ordens, subordinação da vontade a
uma autoridade, abster-se de algo proibido.
Eis
aí o grande arsenal de barreiras que separam o homem do seu ideal de
obediência; seja às leis da sociedade, da vida ou até às suas próprias leis.
Não
parece ser natural ao homem o submeter-se, o sujeitar-se. Está presente nele a
necessidade do entendimento das razões para tal sujeição ou submissão, caso
contrário, entrega-se à rebeldia, o que é mais comumente notado no comportamento
humano.
Ceder,
não resistir – a rendição quase nunca é voluntária; há sempre uma condição para
tal.
Afinal, ceder, render-se, sujeitar-se - não seria sinônimo de fraqueza ou admissão da perda?
Afinal, ceder, render-se, sujeitar-se - não seria sinônimo de fraqueza ou admissão da perda?
“Retroceder nunca. Render-se jamais.” – que impulsos
levam o homem a adotar slogans como
este para continuar na negação de sua condição de ser limitado? A quem deve o
homem obediência? E a que? Que espécie de relações tece o homem em que a
obediência é exigida e/ou praticada? E qual é a real necessidade de haver
obediência, se isso não parece intrínseco, natural?
Nas relações estabelecidas é que está a resposta para
essas questões. O modo como se dão as relações é que exige ou determina a
obediência e seus níveis. Nas relações é que se dão as concessões, sejam quais
forem as suas razões. Dentre as mais diversas está a necessidade primeira de se
relacionar, o que está inseparavelmente ligado à necessidade de, às vezes
ceder, e às vezes receber concessões.
Talvez o ideal das relações seja mesmo a troca – que não acontece sem um pouco de doação.
Talvez o ideal das relações seja mesmo a troca – que não acontece sem um pouco de doação.
Onde não há doação, não há entrega, não há concessão,
não há rendição. Onde não há entrega, impera a rebeldia. E as ligações não
pautadas pelo reconhecimento de si e do outro e da necessidade de se comungar,
se corresponder, desprovidas estão do conceito ou ouso de obediência; porque
obedecer é, também, reconhecer que as leis e as normas são necessárias; é admiti-las
presentes em todas as esferas das relações humanas.
Sejam essas leis pré-existentes, herdadas dos
antepassados, ditadas pela cultura, pelos costumes, pelo povo; sejam nascidas
de vivências e comportamentos coletivos comuns, sejam aquelas que nascem do
rompimento de outras leis, da junção ou adequação de normas de convívio, sejam
simplesmente reflexo da necessidade inerente de uma ordem.
Obedecer é reconhecer.
Não se reconhece o que não conhecido.
É necessário conhecer a lei e a ordem, a fim de
reconhecer-se parte disso. E a menos que não se veja a si como parte desse
ordenamento, nem possível será admitir sua sujeição, a ele necessária.
(Reconhecer =
identificar, perfilhar, admitir, aceitar, confessar, considerar, declarar –
www.lexico.pt)
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