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Cocriação

Enternecido com a sôfrega dor da transformação humana, o Eterno usa suas tintas celestes em tons especiais de cinza para demonstrar sua compaixão pelas almas que vagam na imensidão da terra, do mundo caído, ainda não restaurado e tão desesperadoramente sofrido e banhado de sangue e lágrimas. 

Dores infindas, profundas, acalentadas pela inconsciência humana... 

Sofrimentos postergados pela ignorância de si mesmo, de quem se é, daquilo que se sente... 

O desconhecimento fatal da própria essência e o derramamento desnecessário dos perfumes do ser em solos inférteis... 

A solidão do homem como guia na travessia de seu próprio território, desgarrado de um mapa desenhado sem um norte. 

A miséria da autopiedade acoplada  como bússola que,  em vez de guiar, gira desordenadamente em círculo, exaurindo as forças e impedindo o avanço. 

A leitura emocional completamente distorcida dos aprendizados e do conhecimento intelectual que gera o conflito entre a mente e o coração e faz da dualidade intrínseca, o mapa cheio de fronteiras demarcadas pelo medo e pelas dores. 

O homem transforma-se nessa espécie humanamente-robótica, numa existência permeada pela inanição motora da própria essência e pelo movimento frenético daquilo em que deseja se tornar, vivendo essa morte de plenitude, sem nunca chegar ao resultado da fórmula que exala o perfume doce e desejado de se ser quem se é, no mais profundo gozo da experiência imperfeitamente humana com a confiança genuína na perfeição divina que transforma no homem aquilo que para ele estará sempre no campo do inalcançável. 

A glória única  e indescritível  do homem está na sua aceitação em participar da cocriação divina no seu próprio caminhar humano de mutação e transformação. 

Ao aceitar a sua própria condição e se dispor aos manejos da Divindade, o homem adentra o campo do discernimento e aos seus olhos é permitido ver o que, sem rendição não lhe seria possível. É-lhe concedida então a capacidade se dispor e se disponibilizar, de abrir-se para o processo de mudança, que o leva a reciclar os mais fétidos fragmentos guardados no porão do ser. 

A negação, a rejeição, a eterna fuga do encontro de si mesmo, cedem lugar a um lindo e continuado processo de restauração  e reciclagem do lixo interior. 

E esse movimento da imperfeição humana com a perfeição divina se dá pela rendição do imensurável sustentáculo construído para comportar e sustentar a desgraça da condição humana, a fim de que, após rendido e caído por terra, seja o homem o agente de sua própria trajetória e não mais o reagente espevitado de suas infinitas dores e dualidades. 

Seja o homem esse ente integrado ao Universo, ao Divino, ao Eterno. 

E seja a travessia humana por essa terra desolada pelo mal e pelas forças da destruição permanente, uma caminhada vigorosa de grandes experimentos da porção  divina  somada com a ação humana, essencialmente criadoras de realidades recicladas e restauradas e transformadas e declaradamente distintas daquilo que é apenas tipicamente humano e destruidor, apontando para aquilo que é divinamente gotejado na essência humana e eternamente salvador. 

A declaração humana de sua dependência  do Divino é o que torna possível ao homem experimentar ao longo de sua  trajetória, ser guiado pela luz que o permite ver além das aparências, além do que se pode saber e conhecer, além de suas limitações - ver o invisível aos olhos, ver e sentir sua essência constantemente imersa no processo lindo e inenarrável de sublimação humana, nessa mistura de cores divinas para resultar no aroma agradável dessa união do homem como parte, com o universo inteiro, como um todo. 

Fosse permitido ao homem a mistura de suas próprias cores e essências primárias, não ocorreria jamais processo algum de sublimação capaz de tornar agradável, nem mesmo ao próprio homem, se deliciar com os resultados das misturas e cheiros resultantes. 

É na rendição e entrega de sua humana incapacidade que o homem encontra e recebe e aceita sua capacidade divina de ser, de buscar ser o seu melhor e, em o sendo, permite ao outro que também o seja. 

É então, nesse ínterim, que o homem se permite a inimaginável experiência de ser instrumento de transformação e cocriação de si mesmo e do outro e do mundo e do universo.  



 Ione Camelo em 26/03/15

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