Letra Bordada
Quando ainda na minha tenra infância, aos oito anos
de idade, estudava a segunda série primária, sofri uma grande decepção.
Minha querida professora, na hora de entregar as
avaliações dos alunos, comentava com cada um, seus resultados positivos e em
que ponto especifico deveria melhorar.
Foi num desses pontos específicos que me esbarrei
com o meu primeiro choque desilusivo da minha vida: minha letra.
Ela havia acabado de elogiar meu amigo, aquele
garoto terrível, que faz piada, que não para quieto, que dá risada até chorar,
que é muito agitado e agitava a turminha (e que eu adorava).
Não me recordo da avaliação de nenhum outro coleguinha,
mas deste, me recordo com clareza.
Certamente ela avaliou todos os meus coleguinhas de
turma e quando foi a minha vez...|tristeza do Jeca| - ela elogiou a nota, o
comportamento, o cuidado com o asseio pessoal (sim! Isso tudo era avaliado
naquela época); mas na hora de falar da minha letra, a vaca foi para o brejo!
Imaginem vocês que os meus cadernos da escola eram
amados, cuidados, eu caprichava nas tarefas, na letra... desejava todo o tempo
todas aquelas estrelinhas lindas no meu caderno, me esforçava para
consegui-las; amava estudar, amava a professora, a escola, os amigos, o recreio
tão recheado de brincadeiras inocentes e agitadas...
E nesse dia de avaliação, parte do meu universo
encantado das letras quebrou-se como um vidro frágil.
Eu acreditava que a minha letra era perfeita,
desenhada, pintada “a la Van Gogh”
(nem sabia da existência dele ainda), uma letra cuidadosamente bordada em
pontos e matizes diversos, quase uma coleção destes para cada disciplina!
Não era o primeiro momento em que a comparação se
fazia presente no ambiente escolar, mas era a minha primeira derrota
comparativa.
Minha tristeza se deu pela via de comparação de
todos os meus requisitos perfeitos como asseio, comportamento, cuidado com o
material escolar, etc.
Ao perceber a avaliação positiva do meu coleguinha e
a avaliação negativa da minha letra, meu mundo caiu uma banda na minha cabeça
perfeitinha.
Me lembro da grande decepção que sofri quando, na
minha cabeça infantil que acabara de entrar na segunda infância, houve um grande
rompimento com a ilusão de perfeição.
A amada professora só havia comentado que eu
precisava ter uma letra mais redondinha, nada mais. E para mim aquelas palavras
foram de reprovação de tudo o que eu era ou fazia.
Passei dias tentando arredondar a minha letra. Pedi
ajuda para minha mãe, que também não entendia como é que poderia fazer isso.
Olhei o caderno do meu referido colega que tinha uma
letra meio esparramada e que havia sido elogiado e tentei (em vão) descobrir o
que era uma letra arredondada.
Como? – Eu me perguntava – como é que uma letra
esparramada assim pode ser arredondada?
Questionei a professora, comparei meu caderno com o
dele, argumentei, falei que não compreendia como aquela aquarela dele poderia
se comparar ao meu traço “vangoghiano”,
mas não consegui demovê-la da ideia de que minha letra precisava arredondar-se.
Esfalfada com a triste constatação de que eu deveria
esforçar-me num caminho de arredondamento, fui para casa desconsolada e
pensando numa forma de trilhar esse novo caminho de aprendizado.
Naquela tarde, pegue papel, lápis e borracha e me
pus a tornear as letras de um texto inteiro do meu livro. E quanto mais tentava
fazê-las rechonchudas, torneadas, abauladas, mais me frustrava com o resultado.
Pedi ajuda para as amiguinhas que de nada sabiam a
respeito de letras roliças... minha mãe, tampouco... Ninguém parecia estar a
par dessa exigência professoral, como é que eu, com tão pouca idade, poderia
estar?
Os dias se passaram e, sem suportar o peso de todas
as letras do alfabeto e suas possíveis combinações em forma de sílabas,
palavras, frases, citações, textos, cadernos, livros, enciclopédias... todo um
universo, enfim, pesando sobre minha cabeça infantil, incapaz de formatar uma
imagem satisfatória de uma letra circular, busquei na figura da professora a
libertação dessa pena imposta de forma tão singela e carregada por mim de forma
tão dolorosa.
Nada havia de fato que fosse penoso no processo de tornear
a minha escrita. A pena real consistia em não compreender o que seria esse
arredondamento afinal.
Eis que ao questionar a professora, recebo dela o
lenitivo para a angustia dos dias de busca por uma letra perfeita. Em meio a um
abraço estilo maternal, ela me explica que é para escrever de forma que as
letras ficassem mais próximas umas das outras, que todas ficassem mais ou menos
do mesmo tamanho, que o espaço entre uma palavra e outra fosse mais ou menos o
mesmo... foi explicando com amor e eu fui me sentindo impulsionada a escrever
com toda aquela beleza e facilidade presentes nas palavras dela.
Fui para casa consolada no final daquela manhã.
Empolgada com todas as palavras que escreveria
naquela tarde ensolarada de outono.
O peso que outrora dominava meu ser, esvaia-se aos
poucos, à medida em que eu me esforçava para melhorar a escrita e na medida que
a comparação entre mim e meu colega também estava sendo eliminada.
Nada tinha para ser comparado.
Ele menino e eu menina.
Ele brincalhão e lindo!
E eu donzela inteligente!
Ele com letras arredondadas e eu com textos bem
construídos (ao que se propunha naquela fase).
O tempo passou e eu acho que minha letra cursiva
nunca foi um paraíso encantado. Clara, legível, mas não podia admirá-la como
sendo bela.
Na adolescência, a era das vaidades extremadas,
comecei a treinar para escrever letra de forma.
Treinei tanto que adotei como sendo minha principal.
Essa escrita me trouxe o burilamento que eu sonhava
desde a infância. Trouxe o tamanho equilibrado entre as letras, o espaçamento
justificado, a perfeição que eu desejava.
Levei para a vida essa letra perfeita e ganhei
elogios.
|Venci meu colega|.
E nesse tempo de agora que decidi aceitar de forma
prática e atuante os meus dons e construir a jornada que sempre sonhei, me
ponho a escrever, agora, no computador, e a reler meus escritos cursivos, e dou
risada dos rabiscos lindos que faço nos meus caderninhos tão recheados de
minhas reflexões e insights. São letras rabiscadas para que os dedos acompanhem
a velocidade do raciocínio, das ideias, das palavras que aparecem em turbilhão
na minha mente e que preciso desová-las no papel.
É tão lindo!
É tão transformador aceitar nossos garranchos e
nossos rabiscos!
Renova a alma perceber a arte na expressão mais
simples daquilo que fazemos como resultado do transbordamento de nossa alma,
que está sempre tão recheada de talentos, à espera de que tenhamos um pouco de
abstração do externo e acessemos esse conteúdo interno tão indescritível e que
se materializa de formas tão distintas e belas e coloridas e únicas, e
expressemos todo esse nosso universo interior multiforme, sem o peso da
comparação com outros universos, sem a finitude que impomos ao próprio
pensamento, sem as limitações resultantes de nossa estima deslocada, sem a
preocupação do olhar do outro, que sempre será diferente do nosso.
É sobrehumano o estado da alma quando sessadas todas
as comparações.
É sobrenatural viver e expressar nossas memórias e
nossos sentimentos em relação a elas.
Amo escrever.
Amo minha letra, meus rabiscos, meus garranchos.
Amo todos os mestres que fazem parte da minha
jornada de aprendizagem.
Amo a Deus – criador lindo do universo que me
encanta a todo instante com essa riqueza manifesta em cada detalhe mutante.
Amo as pessoas que trazem seus universos
multicoloridos e tão ricos para compartilhar e reciclar e trocar.
Amo estar nessa jornada de descobertas
sensacionais!!!
Sejam nossos dias mais rechonchudos e nossa vida
mais e mais expressão de tudo o que já recebemos do Ser Superior que nos fez.
E que a alegria seja sempre o caminho, mesmo nos
dias em que o peso da perfeição se faça presente.
Ione Camelo
Reflexões de Um Camelo
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